Crônica: Considerações Sobre a Vida, aos Setenta...
Sexta Feira, 29 de Maio de 2026
Sempre achei essa idade bonita, fascinante pelo modo como lidamos com a vida. Dizer que a "vida passou célere aos setenta" é uma reflexão comum sobre a efemeridade do tempo e o envelhecimento. Mas, cá para nós: não foi tanto célere assim, não, mas as lembranças é que causam essa constatação de “ passou rápido “. Lembro de minhas aulas de reforço, à tarde, década de 1965/66, com a inesquecível professora Dagmar, uma senhora morena, gorda, baixa e que tinha a mão pesada na hora de usar a palmatória, de madeira, que dava para alcançar a nossa mão aberta. Na primeira, e única vez que errei uma resposta a uma pergunta dela (“ vem cá, Toinho, me diz quanto é 6 x 9? – E eu, querendo me esconder: - 56, e ela, me dê a mão direita porque é 54, e pau comia, digo à palmatória. Isso foi numa segunda feira. Nesse mesmo dia, no final da aula, a professora Dagmar informou que na última aula da semana, na sexta, iria fazer uma disputa entre os alunos. Quem errasse, levaria à palmatória do que acertou. Durante quatro dias me enfurnei no quarto de nossa casa da rua da Estrela, que dividia com meus irmãos, e passei a decorar a tabuada. Só parava para tomar água. Lembro que na sexta-feira prometida, a professora Dagmar dividiu os alunos e eu fiquei de “ batalhar “ com um jovem chamado Lívio Parente, filho de um famoso médico à época, do mesmo nome. Na primeira disputa, o jovem errou a pergunta da professora e eu meti à palmatória, um pouco constrangido, confesso. Depois a professora se dirigiu a mim e quis saber: qual o resultado de 9 X 7. Olhei para os lados e os colegas apreensivos, achando que eu não saberia (a professora já estava com a palmatória na mão), mas eu disse: 63. Como acertei tinha direito de uma nova palmatória no jovem Lívio, mas a professora imediatamente protegeu o rapaz e disse que a aula tinha terminado. O jovem morava numa linda casa, apegado e ao lado da casa da professora, e ela fazia exames de laboratórios na Clínica do pai dele. Política de boa vizinhança, diria depois minha vó Mariana. Fiquei famoso entre os colegas do “ Dever de Casa “, como era chamado o reforço da época.
Estou chegando aos setenta depois de dois infartos e três stents, sempre bem atendido pelo gentleman Dr. Itamar Abreu, do Itacor, o hospital onde “ o coração está em boas mãos “ andando, um pouco claudicante, é verdade, como consequência da atrofia muscular na infância, doença neuromuscular que com o avanço da idade tem causado fraqueza e/ou falta de equilíbrio. Associado à falta de atividade física, essa tem sido a principal sequela, em vida. Lembro que minha mãe enfrentou noites mal dormidas nas calçadas do INSS da praça João Luís para conseguir número e marcar consulta com o Ortopedista top da época, Dr. Antonio Portella, já falecido. Apesar dessas agruras, fui um jovem estudioso, aprendi inglês e a cantar de tal forma (Morris Albert e seu Feelings fazia sucesso) no colégio São Francisco de Assis, em frente a Igreja São Benedito, tanto que o professor de Inglês, Julinho, me dispensava de provas, desde que fosse cantar nas aulas, rsrs. Sempre fui irrequieto, e nessa época fiz sucesso no colégio e lancei um chapa para concorrer à presidência do Centro Cívico Monsenhor Uchoa. Surgiram três chapas, uma de cada turno (manhã, a minha, uma tarde e outra chapa da turma da noite). Professor Roberto Freitas, diretor, comandou as eleições e determinou voto alternativo, por cargo, e não chapa batida, como queríamos. Quis o destino que o único candidato de minha chapa vitorioso foi justamente eu, e para presidente. Na formatura em direito, na UFPi, no já distante ano de 1983 ( 29 de julho ), varios colegas manifestaram o desejo de ser o Orador da Turma, entre os quais, eu. A Comissão Organizadora decidiu que faria um concurso entre os pretendentes e os formandos decidiriam qual o melhor . Ganhei por diferença de dois votos com o apoio da " arraia miúda ", a turma mais humilde dos formandos, na maioria homens. Lembro que recebi efusivos abraços do grande professor Samir Haddad, responsável pela Aula da Saudade. Depois, já formado, me inscrevi em dois concursos públicos, Juiz e Promotor, ambos no meu estado, Piaui. No do TJ-PI tive a inscrição indeferida barrado logo no " exame psicoténico", sem direito a fazer a prova escrita. Depois soube que teria sido porque no desenho de fazer uma árvore esqueci de colocar o chão. No Ministério Público estadual, varios candidatos tiveram o mesmo destino no tal exame psicotécnico, mas com a diferença de que era admitido o recurso para a Comissão Organizadora e um colega, advogado militante à êpoca, de nome Gilberto Ferreira, foi o primeiro a entrar com Recurso e, consequentemente, o primeiro a ser julgado. Eu estava pendente do resultado. A decisão foi no sentido de permitir a todos os inscritos o direito de se submeterem à primeira prova escrita ( direito penal , num total de 10, todas eliminatórias). Lembro que cheguei ao secretário do concurso, no MP, dr. Antonio Gonçalves Vieira, de saudosa memória, e disse: -" uma das vagas sera minha, pode anotar ". Foi o primeiro Concurso Público já com as regras constitucionais da Carta de 88. Fiquei na primeira relação dos 20 primeiros colocados. Agora aos setenta , constato que tenho muito mais passado do que futuro. É chegada a hora de optar pelo essencial, porque já não teremos tempo para mediocridades. Nada de conversas intermináveis, nem quero ser chamado para ajustar mimimi de conversas oriundas do tal zap, na maioria das vezes de colega contemporâneo, apesar da imaturidade. Parece que o rótulo venceu o conteúdo.
Como bem afirmou o jornalista Carlos Alberto Di Franco, “ há uma ideia muito difundida – e profundamente equivocada – de que a vida atinge um ápice e, depois, entra num planalto descendente. Vende-se a tese de que a fase mais fecunda está no início e o restante se resume a administrar o passado. É um erro, uma leitura pobre da existência. Reduz a vida a uma curva biológica quando ela é, antes de tudo, uma construção espiritual e moral, feita por decisões, escolhas e fidelidade. A parábola dos Talentos, do Evangelho, desmonta essa visão com clareza. Cristo não pergunta quando produzimos mais – se aos 20, 40, 60 anos. Pergunta se fizemos render os talentos recebidos. A vida não se mede por fases, mas pela fidelidade ao chamado, pela capacidade concreta de transformar dons em frutos, por isso que a maturidade não ´é redução da missão. É mudança de métodos. O que antes eram dispersos, começa a ganhar unidade, o que era impulso se transforma em convicção. Resumo da ópera: a vida não envelhece. Depura-se. O tempo, quando bem vivido, não desgasta- lapida. Corrige excessos, purifica intenções, forma caráter, consolida virtudes que não se improvisam. A maturidade inaugura uma nova fecundidade. Um olhar pensante, eu diria. Aprende-se a escutar, a esperar, a não reagir impulsivamente. Então, diz o autor, o que Deus espera de mim agora, na maturidade? A resposta exige lucidez e coragem. A vida continua pedindo resposta, e resposta concreta ( “ A Força Silenciosa da Maturidade, texto de Carlos Alberto Di Franco , postado em www.gazetadopovo.com.br edição de 10/05/2026, especialista em Ética e Doutor pela Universidade de Navarra ( Pamplona , Espanha ).
A parte triste é constatar nos dias atuais que a sociedade, e suas instituições, não fazem o dever de casa no quesito inclusão, e tem obrigado septuagenários a usar smartphone para acessar seus próprios direitos. Pois é, correspondências do tipo “ necessário proceder cadastro no SEI ...é preciso baixar o aplicativo. O idoso, com raríssimas exceções, não sabe manusear a tecnologia informática. Até para marcar uma consulta criaram uma telemedicina, e é preciso de um filho ou neto, para “ enfrentar “ a tecnologia, porque em 2026 tudo gira em torno de um aplicativo. No meu caso, tenho conhecimento básico, suficiente para manter um blog em atividade. Mas se precisar download, enviar arquivo, aí mata o véi. Sou salvo, ou pela filha ou pelo sobrinho. Por isso que, quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo, mas sim nos tornando mais egoístas É de lascar.
Fiz muitos amigos, alguns partindo antes da data aprazada ( nesta semana que antecede minha efeméride vieram me contar do passamento de dois colegas, em dias alternados ,levados pela malignidade do ca . Ambos já tinham vivido a felicidade dos setenta. Não conheci inimigos, exceto um ou dois desafetos dos tempos de líder estudantil. Não sei se chegarei aos oitenta, mas quero ir vivendo com alegria ao lado de minha querida esposa, Lêda e que, nessa " nova idade ", contenha mais a ansiedade e, de quebra, o nervosismo, com a esperança de, como todo rotariano atuante, continuar a ajudar as pessoas mais necessitadas, dando de sí antes de pensar em sí. Tentar viver o mais saudável possível com saúde, praticando o bem, em Rotary, e, vez por outra, lendo um bom livro. Como disse Cora Coralina, no seu poema SABER VIVER, “ não sei se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas “. Fazer 70 é fato marcante, sim, e quero reunir filhas, esposa e uns pouquíssimos amigos para o agradecimento a Deus que, em sua infinita bondade, tem permitido essas glórias.
Oxalá!
· O autor é promotor de justiça aposentado MP/PI, editor do blog https://tomoliveirapromotor.blogspot.com/, e agora septuagenário.
29/05/2026


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